Bairro judeu: um passeio pelo antigo bairro no coração de Berlim

Passeando pelo bairro judeu num dia muito frio...

Passeando pelo bairro judeu num dia muito frio…

Apesar de ser guia em Berlim e ter um grande interesse histórico na cidade, o bairro judeu foi um dos últimos que eu me pus a explorar.

Veja bem, eu cresci em Olinda, cidade histórica e patrimônio da humanidade. Quando criança eu até já tinha uma ideia do passado da cidade alta, mas confesso que não sabia dizer que prédio tinha sido o quê e a importância dessa ou daquela praça pros eventos ocorridos.

Deve ser aquela história de que santo de casa não faz milagres.

Por exemplo, numa viagem ao Rio de Janeiro com minha família, ainda quando criança,  fiquei impressionado que meus primos de lá ainda não tinham visitado o Cristo Redentor.

Claro, eu posso dizer que conheço Berlim direitinho, mas essa parte da cidade, o antigo bairro judeu, demorou um pouco mais pra chamar minha atenção no quesito história.

Isso porque fica nos arredores da faculdade, por onde eu ia almoçar e jantar, ou seja, um lugar muito frequente no meu dia-a-dia.

Esse passeio começa pela estação de S-Bahn Hackescher Markt, exatamente a estação usada para assistir as aulas e fazer as provas. Um bom lugar pra iniciar é também a parada de ônibus Spandauer Str./Marienkirche com os ônibus 100, 200 ou TXL.

Aqui dizemos como fazer um city-tour baratinho em Berlim com o ônibus 100

Agora senta que lá vem história…


O antigo bairro judeu

Aproximadamente onde hoje se encontra a estação Hackescher Markt havia um portão chamado Spandauer Tor, onde terminavam as muralhas da cidade.

Dentro de Berlim era proibido o armazenamento de feno e palha, materiais muito utilizados pelos camponeses, pra agricultura mesmo. Por conta disso, logo em frente ao Spandauer Tor, surgiram vários galpões e celeiros para o armazenamento do feno, motivo pelo qual os arredores ainda são conhecidos como Scheunenviertel (como você deve estar imaginando algo do tipo, “Scheune” = celeiro).

Só então a partir da metade do século XVII é que podemos ver o Scheunenviertel tomar ares de bairro judeu.

Nessa época, muitos huguenotes e judeus vieram fugidos da França de Luís XIV. Boa parte desses judeus se estabeleceram nessa parte externa de Berlim, a chamada Vorstadt.

Por volta da virada do século, em 1700, Friedrich Wilhelm I expandiu a muralha da cidade, fazendo da Spandauer Vorstadt parte oficial de Berlim. Hoje está praticamente no coração da cidade.


Entrando no bairro judeu


Hackescher Markt

Essa praça (e a estação de trem) tem esse nome por conta do Stadtkommandant Hans Christoph Graf Von Hacke, que foi incubido a organizar a região. Devido aos galpões, à estrada que levava a Spandau e, posteriormente, por conta da expansão da muralha, o mercado local – o Hackescher Markt – ganhou muita importância.

Tarde de sol no Hackescher Markt. #berlim #berlin #hackeschermarkt

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Todas as quintas-feiras ainda há feira na praça em frente à estação, com produtos agrícolas regionais e artesanato.

Ali pertinho você já vai ver a entrada para o próximo ponto…


Hackesche Höfe

Na segunda metade do século XIX Berlim passou por um processo de industrialização muito intenso.

Os prédios onde moravam os operários eram bem insalubres. Os trabalhadores alugavam os apartamentos da parte de trás do prédio e geralmente nos andares mais baixos, o que acarretava em pouca luz do sol e pouca ventilação, facilitando a transmissão de doenças.

O conjunto Hackesche Höfe, inaugurado em 1906 sob o projeto do arquiteto Kurt Berndt, foi planejado para ser um conjunto de Hinterhöfe (pátios internos) moderno.

Diferentemente das demais moradias operárias espalhadas pela cidade, esse conjunto tinha uma ventilação melhor, mais exposição ao sol e mais conforto.

Foi utilizado desde o início tanto como residência como comércio e confecções. Funcionaram ali: bancos, alfaiates, artesãos, luthiers, etc. Grande parte de judeus, claro.

Sofreu danos durante a guerra e só terminou de ser restaurado em 1977, quando foi colocado sob proteção do patrimônio histórico.

Hoje, totalmente restaurado, é um lugar bom pra fazer compras e tem várias opções de entretenimento (cinema, bares, galerias, chocolateria e loja de brinquedos artesasanais) – vale a pena a visita.


Blindenwerkstatt – a fábrica dos cegos

Otto Weidt era um fabricante de escovas, pinceis e vassouras – e quase cego.

Entre 1940 e 1945 ele e sua esposa, Else, empregaram mais de 30 judeus cegos ou surdo-mudos na fábrica. O exército nazista lhes enviava os rabos de cavalos mortos no fronte leste e Weidt e seus funcionários judeus confeccionavam seus produtos.

Parte dos bens produzidos ali eram trocados no mercado negro por comida, remédio e documentos falsos para os judeus. Durante anos, Otto escondeu membros da família Horn e Licht em câmaras escondidas da fábrica.

Depois de várias denúncias, os judeus remanescentes foram enviados aos campos de concentração. Weidt chegou a viajar para alguns desses campos, inclusive Auschwitz, para enviar pacotes com presentes para os seus amigos judeus.

Até hoje não se sabe quantos judeus os Weidt salvaram, mas com certeza o casal é exemplo de humanidade.

A antiga fábrica ficava na Rosenthaler Str. 39.


Um passeio pela Große Hamburger Straße

Em uma só rua, a Große Hamburger Straße, você vai encontrar um montão de referências do antigo bairro judeu. Vem cá comigo:


Jüdischer Friedhof: o cemitério judeu mais antigo de Berlim

Entre 1672 e 1827 cerca de 12.000 judeus foram enterrados ali entre os números 26 e 27 da rua.

Entrada do antigo cemitério judeu

Entrada do antigo cemitério judeu

Memorial na entrada do cemitério

Memorial na entrada do cemitério

Das poucas lápides que foram recuperadas...

Das poucas lápides que foram recuperadas…

Todas as lápides eram de Sandstein (arenito), todas baixas e de mesma estatura, para lembrar da igualdade na morte entre ricos e pobres.

Depois do fechamento, em 1827, o cemitério serviu de parque para o Altenheim (asilo de idosos) e outro cemitério judeu foi aberto em Schönhauser Allee.

Em 1943, a mando da Gestapo, homens da SS invadiram o centenário cemitério, quebraram muitas das lápides, desenterraram os ossos e jogaram futebol com os crânios. Tudo isso sendo assistido pelos judeus a partir do Sammellager (Centro de Confinamento) ao redor, onde eles estavam confinados. Muitas lápides também chegaram a ser usadas para reforçar a proteção contra ataques aéreos.

Nos últimos bombardeios a Berlim, o terreno também serviu como um cemitério comum para mais de 2.000 pessoas.

Logo ao lado do cemitério, você verá uma placa indicando que ali ficava um asilo judeu… continua pra ver o que aconteceu com ele.


Das jüdische Altenheim – o asilo judeu

Placa indicando o antigo asilo judeu

Placa indicando o antigo asilo judeu

Às 3 da manhã do dia 2 de junho de 1942, os 50 moradores do asilo judeu foram acordados e obrigados a marchar até a Monbijouplatz para pegar bondes especiais e serem enviados até guetos de velhos (que seriam campos de concentração – Theresienstadt).

O prédio foi completamente esvaziado para dar lugar a um novo Sammellager, para substituir o da Levetzowstrasse, que havia sido bombardeado.

Vem ver meu post sobre Sammellager da Levetzowstrasse. Eu espero.

O prédio foi gradeado, e durante a noite era vigiado inclusive com holofotes nas janelas, de modo que a fuga dos judeus fosse impossível. Homens, mulheres e crianças aguardavam por dias no prédio, com péssimas condições, o momento de serem enviados para os campos de concentração e de extermínio, como o de Auschwitz.

A Gestapo chegou a recrutar os Greifer, que nada mais eram do que judeus que denunciavam outros judeus, para que eles descobrissem onde todos eles estavam escondidos. Depois de os Greifer serem utilizados pela Gestapo, foram também enviados para os campos de extermínio.

Ao todo 55.000 judeus passaram por esse Sammellager.


Die jüdische Knabenschule

No número 27 da Große Hamburger Str., você vai achar uma escola muito especial.

A Knabenschule foi fundada pelo filósofo judeu Moses Mendelssohn em 1778 e foi a primeira escola judaica gratuita, também para não judeus, da Alemanha. Desde o início, a filosofia da escola sempre foi bem liberal e pregava tolerância religiosa, repúdio ao racismo e ao antissemitismo.

A fachada da escola judaica

A fachada da escola judaica

Detalhe da fachada

Detalhe da fachada

Na década de 20 e início de 30, a escola foi expandida, mas, já no ano de 1942, os nazistas proibiram todas as escolas judaicas. O prédio então foi transformado em prisão, com grades e guardas. Virou também um Sammellager. O último diretor da escola, Georg Feige, foi assassinado em 1944 no campo de concentração de Theresienstadt.

Em 1993 a escola foi reaberta como Jüdische Gymnasium Moses Mendelssohn, ou escola ginasial judaica.


Sophienkirche 

No número 31, chegamos à entrada da Igreja Sophienkirche, uma igreja evangélica que tem sua torre em estilo barroco e data do início do século XVIII.

Você pode visitar o seu interior

Você pode visitar o seu interior

Neste ponto, antes de ir dar uma olhada na igreja, se você olhar ao seu redor, verá resquícios da guerra nas fachadas dos prédios em volta da igreja.

Marcas que a segunda guerra mundial deixaram na cidade

Marcas que a segunda guerra mundial deixou por aqui

Pode até tocar nas cicatrizes da cidade

Pode até tocar pra sentir melhor as cicatrizes da cidade

Exatamente por estar localizada no coração do bairro judeu, em uma rua cheia de referências, é que o discurso feito por Martin Luther King, carrega consigo grande simbolismo.

O pastor e ativista Martin Luther King veio à Sophienkirche em 1964 e discursou incisivamente contra o racismo.

Mas a igreja não é o único ponto cristão interessante para se conhecer neste passeio judeu.


St. Hedwig-Krankenhaus

Fachada do hospital

Fachada do hospital

Em 1843, a paróquia católica de Berlim pediu permissão ao Rei Friedrich Wilhelm IV para construir um hospital próprio.

3 anos depois, o hospital já recebia as freiras e começava a funcionar. O arquiteto do prédio central é Vincent Statz, o mesmo que projetou a impressionante catedral de Colônia.

Durante o período nazista, apesar das dificuldades da Igreja com o regime, o hospital continuou funcionando. Conseguindo, inclusive, salvar muitos judeus da deportação.

Durante o período da DDR (Alemanha Comunista), o hospital foi mantido pela Igreja Católica da Alemanha Ocidental.

O hospital católico é hoje centro acadêmico com convênio com a Charité. O prédio é histórico e muito bonito; vale a pena dar uma entrada rápida.


Memorial judeu: as Pedras de Tropeço 

Ao longo de toda essa bela rua Große Hamburger Straße, além dos pontos mencionados aqui, você encontrará algumas surpresas.

Umas, como não podia deixar de ser, contam um pouco da triste história de vidas destruídas naquele período.

Essas pedrinhas douradas no chão são homenagens às vítimas do nazismo.

Essas pedrinhas douradas no chão são homenagens às vítimas do nazismo

As “Pedras de Tropeço”, Stolpersteine, são feitas por iniciativa de Gunter Demnig, e são colocadas na frente ou de onde essas pessoas moravam, ou de onde elas trabalhavam.

Como essa parte da cidade era muito habitada por judeus, se você prestar atenção nas calçadas, verá muitas delas. Hoje já há mais de 60.000 dessas pedrinhas espalhadas pela Europa.

Continuando na mesma rua, apesar dessa densidade histórica, é possível ver beleza e vida.

Schokogalerie, loja de chocolates

Schokogalerie, loja de chocolates

Loja de brinquedos

Loja de brinquedos

Café e restaurante Sophieneck

Sophieneck: esse café e restaurante pode inclusive ser um bom ponto de parada para comer algo ou se esquentar com um café


Die neue Synagoge

Caminhe até a Oranienburger Str. até o prédio de cúpula dourada em com a calçada interditada por policiais: você chegou na nova Sinagoga.

Ela foi a mais importante sinagoga de Berlim

Ela foi a mais importante sinagoga de Berlim

O prédio foi construído em estilo oriental pelo arquiteto Eduard Knoblauch ainda no século XIX.

Em  9 de Novembro de 1938, durante a chamada Noite dos Cristais (quando lojas dos judeus e sinagogas foram destruídas e o vidro cintilava por várias cidades da Alemanha Nazista), a Nova Sinagoga começou a ser incendiada.

Já escrevi aqui um post em que explico a importância do dia 9 de Novembro na Alemanha.

Felizmente, o policial Wilhelm Krützfeld, impediu que o incêndio continuasse, afugentou os arruaceiros da SA e chamou os bombeiros. Diferentemente de várias outras chamadas daquela noite, nessa os bombeiros realmente apagaram o fogo.

Não era incomum ver os bombeiros na noite de 9 de novembro assistindo às sinagogas serem consumidas pelo fogo enquanto impediam apenas que o fogo se espalhasse para outros prédios.

Apesar de não ter sido destruída em 1938, o prédio da nova sinagoga foi usado como armazém das forças armadas nazistas a partir de 1940. Em novembro de 1943 a sinagoga é bombardeada e severamente danificada. Hoje, apenas a fachada é uma reconstrução baseada na original.


Até a próxima!

Pois bem. Espero que eu tenha despertado seu interesse e encorajado você a dar uma voltinha por essa parte da cidade. E não só de passar por lá e ver umas ruas bonitas (que são), mas também de, se possível, aprofundar-se na história do lugar e passar a vê-lo com outros olhos, mais preparados para apreciá-lo.


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+judeus +bairros +memoriais

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20 Comments

  1. Simplesmente…amei! Parabéns, Nicole. O post está lindo e interessante.
    Beijo

    • Nicole 15/01/2016 Reply

      Obrigada, Cris!!! O post tem como sempre meu dedinho editorial, mas o conteúdo é todo do Pacelli… então vou transferir o parabéns a ele! hahah
      Beijos e obrigada por sempre passar por aqui! :*

  2. Bóia 08/02/2016 Reply

    Oi, Nicole. Tudo bem? 🙂

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

    • Author
      Pacelli 09/02/2016 Reply

      Opa, Natalie! Obrigado por passar aqui e selecionar o nosso post. 🙂

  3. Paula Brum 28/06/2016 Reply

    Já havia lido há algumas semanas, mas hoje fui linkar como indicação de leitura no Leiturinhas Viajantes do Mochi e reli, com prazer. Parabéns, ele é sensacional, uma leitura imperdível. BjO

    • Author
      Pacelli 29/06/2016 Reply

      Obrigado, Paula. Pelo comentário e pela indicação.
      Abraços.

  4. Arnon Schaefer 19/07/2016 Reply

    Nunca fui à Berlim mas me parece uma das melhores cidades da Europa

  5. erika knoblauch 12/08/2016 Reply

    Pacelli e Nicole!
    Que emoção ler as informações neste post de vocês. Faço parte da Família Knoblauch – meu avô Georg Justus Gustav Knoblauch (1866-1926) foi quem veio para o Brasil – e é sempre uma alegria conhecer mais da história. Eu já estive no KnoblauchHaus Museum em Berlim. Foi emocionante.
    Grande abraço,
    Erika Knoblauch

    • Nicole 24/08/2016 Reply

      Caramba, Erika! Eu e Pacelli ficamos super emocionados com o seu comentário!
      Que delícia saber disso, estamos muito felizes em trazer um pouco da história da sua família para mais pessoas.
      Abraços e obrigada por passar por aqui!

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