Berlim, 1945: a paz não começa com o fim da guerra (parte 1)

Berlim 1945: 70 anos do fim do conflito

Vir a Berlim e ver como a cidade era, como ficou depois da II Guerra e presenciar como ela está hoje é sem dúvidas uma das experiências mais interessantes de viagem.

Vislumbrar a possibilidade de uma grande cidade ressurgir das cinzas, de seus habitantes reorganizarem suas vidas e a liberdade mais uma vez triunfar, é o que torna Berlim tão especial.

Outras fotos antes/depois na cidade vocês podem ver no site interativo que o jornal Berliner Morgenpost preparou.

Neste ano de 2015, está havendo uma celebração dos 70 anos do fim do conflito, e a cidade está oferecendo uma excelente oportunidade para vermos não só o antes e o depois de Berlim, mas todo o longo e penoso processo do último ano da guerra, 1945. Exposições espalhadas por vários pontos, documentários, imagens e filmes inéditos estão disponíveis e vocês podem acessar aqui no site especial do evento.

Em razão dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, eu resolvi também contar para vocês um pouco sobre como foram os últimos meses de Guerra e os primeiros meses de Paz para os alemães.

Essa primeira parte é uma contextualização e uma visão panorâmica da situação na Alemanha como um todo. Na próxima semana, divulgo outro post específico sobre o conflito na cidade de Berlim.

Janeiro de 1945: as baixas alemãs

Em janeiro, os soviéticos lançaram suas maiores ofensivas da guerra. E o exército alemão já não contava com a infraestrutura de outrora. Sem suprimentos, sem equipamentos, armas e até munição adequadas, as baixas foram enormes.

Somente nesse mês, 450 mil soldados alemães perderam a vida, número maior que todas as perdas de americanos e britânicos durante todo o conflito. Mais de um quarto de todas as perdas de vidas de militares germânicos durante o conflito foram durante os 4 primeiros meses de 1945.

Já a partir de Janeiro de 1945, poucos alemães tinham realmente esperanças de uma vitória na guerra, apesar dos discursos otimistas de Hitler e da cúpula nazista nas rádios. Muitos, porém, já esperavam uma derrota terrível, piorada pelo fato de que os nazistas não se renderiam jamais.

Os desertores

Muito dessa ideia de não se render jamais, de nomear algumas cidades fortalezas, defendendo-as, portanto, a todo custo, vem do trauma alemão com a I Guerra. De acordo com a propaganda nazista, o povo alemão teria sido traído pelos governantes da época e pelos supostos exércitos de desertores. Isso explica a ferocidade com a qual os oficiais e líderes do partido iriam lidar com qualquer homem em idade de lutar que estivesse fora de seu posto.

Com a perda dos territórios ocupados e também das esperanças, muitos alemães, agora em defesa em seu próprio país, viram-se numa confortável situação para deserção. Já lutando dentro da Alemanha, onde eles falavam a língua, tinham parentes e conheciam bem o território, tudo contribuía para que eles fugissem do front. Por isso, as ordens vindas de cima eram claras: tratar os acusados por deserção com o máximo de rigor, para que a vergonha da I Guerra não se repetisse.

Para termos uma ideia, a “justiça” da Wehrmacht (exército alemão) executou 15 mil homens acusados de serem desertores. Na I Guerra, foram 18 homens. Para fazer um comparativo, os americanos executaram apenas 1 e os britânicos nenhum durante o conflito da II Guerra. Por isso, o clima entre os próprios soldados nazistas era da maior tensão.

O oficial Erwin Helm, um caçador de desertores, chegou a pintar na lataria de um Mercedes o termo “Corte itinerante”, mas, apesar do nome corte, muitas vezes não havia julgamento algum e os acusados de serem desertores eram imediatamente executados.

Os civis

O sofrimento e o clima de derrota entre os alemães não atingiam somente os militares. Praticamente todos os homens capazes de segurar uma arma foram alistados forçosamente na Volkssturm, uma espécie de milícia formada basicamente por crianças.

Além de perder suas crianças, a população teve que lidar, claro, com os bombardeios. Boa parte do país foi varrida por ataques aéreos. Praticamente todas as cidades com mais de 50.000 habitantes foram fortemente bombardeadas.

Mas não só isso, mais de 850 vilarejos de todo o país foram atingidos. Pessoas passavam a noite dentro dos bunkers (abrigos antiaéreos) e o dia organizando o que tinha sido destruído e recolhendo os mortos.

Como se a perda de suas crianças e a destruição de suas cidades não bastassem, a propaganda nazista divulgava panfletos pelas cidades falando da bestialidade dos inimigos. Ou seja, muitos alemães já contavam que perderiam a guerra e seriam conquistados por verdadeiras bestas irracionais e assassinas. Isso gerou uma enorme onda de suicídio.

Ainda para piorar a situação dos civis no leste alemão, os militares tiveram absoluta prioridade de passagem nas estradas durante as fugas do leste. Enquanto o exército vermelho avançava e os alemães fugiam lotando estradas, muito ficaram pra trás e foram assassinados pelos soviéticos porque o exército alemão abria passagem nas estradas congeladas no início de 1945.

Calcula-se que algo em torno de 8 a 12 milhões de alemães (colonos ou apenas germanófonos) foram expulsos dos países do leste europeu apenas no início de 1945. Mais de 500 mil deles morreram pelo caminho.

Continua na próxima terça… clique aqui para ver o nosso segundo e último post da série “Berlim, 1945”

Fontes:
Livro “Frühling in Berlin” do Kulturprojekte-Berlin.
Livro “Alemanha, 1945” de Richard Bessel, link na Amazon.
Reportagem especial no jornal alemão Die Zeit.

Se você gostou desse post, dá uma olhada também:

Campo de concentração Sachsenhausen
Memorial do Holocausto
Memorial às vítimas da guerra e da tirania
Memorial à sinagoga destruída
Bunker de Hitler
e outros posts na nossa tag Segunda Guerra Mundial

Quem sou eu: Pacelli

Economista, mas apaixonado por filosofia, literatura, história e alta cultura, resolvi estudar os temas que aprecio em casa. Sempre procuro incluir essas temáticas nos meus posts sobre Berlim e Alemanha que você encontra por aqui.


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